Memórias das Ocupações de Fábrica: o resgate de uma das maiores experiências operárias do Brasil 

No último domingo, 20 de abril, em São Paulo, foi realizado o lançamento do livro “Memórias das Ocupações de Fábrica“, de José Onírio Martins. A atividade integrou a programação da Escola de Quadros e do 9º Congresso da Organização Comunista Internacionalista (OCI), reunindo militantes, trabalhadores e jovens de todo o país para resgatar uma das experiências mais importantes da história operária do Brasil.

“Todos que participaram das ocupações das fábricas podem olhar para o futuro com honra e dizer: ‘Nós ousamos e o faríamos de novo!’”, escreveu Onírio.

Editado pela Editora Marxista, o livro reconstrói a trajetória do Movimento de Ocupações de Fábricas no Brasil entre 2002 e 2007, período em que trabalhadores assumiram o controle de empresas falidas para preservar empregos e direitos. Esse movimento teve início com a ocupação de fábricas como a Cipla e a Interfibra, em Joinville, Santa Catarina, e a Flaskô, em Sumaré, São Paulo, em um contexto de crise, salários atrasados e ameaça de fechamento.

Imagem: Jonathan Vitorio

Ao narrar recordações sobre todo o período do movimento, o autor revela não apenas os bastidores de uma resistência operária baseada na organização coletiva e na luta pela estatização sob controle dos trabalhadores, mas também o desenvolvimento da consciência de classe e a capacidade dos próprios operários de gerir a produção.

Trata-se de um testemunho potente sobre coragem e persistência, mesmo diante da repressão estatal, que culminou na intervenção da polícia federal de 2007, que encerrou a ocupação na Cipla e na Interfibra.

A mesa de lançamento do livro nesse domingo contou também com a presença do secretário-geral da OCI, Serge Goulart. Ele explicou que o Movimento das Fábricas Ocupadas foi um combate operário não para se tornar um pequeno sócio ou empreendedor, por meio do cooperativismo, mas uma luta operária, com vistas a expandir o movimento e estatizar sob controle operário, rumo à revolução comunista.

Ele também enfatizou a importância histórica da obra: “O que está dentro deste livro é um tesouro para a classe trabalhadora.”

Imagem: Jessica Stolfi

Serge relembrou ainda a perseguição política e judicial contra os dirigentes do movimento a partir das conquistas concretas da ocupação operária das fábricas ocupadas, como a redução da jornada de 44 para 30 horas semanais sem redução de salários.

José Onírio Martins é graduado em Ciências Contábeis pela Univille (Joinville) e tem especialização em Análise de Balanço. Construiu sua trajetória profissional na iniciativa privada, inclusive na Cipla antes da gestão operária.

Na juventude, atuou como assessor da Pastoral da Juventude Católica, ligado à Teologia da Libertação, além de participar do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) e do movimento estudantil secundarista, onde esteve à frente da luta pelo passe livre em Joinville.

Ingressou no movimento comunista em 2000, por meio da Esquerda Marxista (hoje OCI), fortalecendo sua militância no Movimento das Fábricas Ocupadas como trabalhador da Cipla e membro do Conselho de Fábrica durante a gestão operária.

Durante o lançamento, Onírio ressaltou a necessidade de registrar essa história: “Quando contávamos, sobretudo para os jovens, essas histórias, eles arregalavam os olhos. Então falei com o Serge que precisávamos escrever”. E completou: “Tive sorte de ter conhecido o comunismo, e isso veio a partir das fábricas ocupadas (…) Estar naquele movimento me deu a oportunidade de aprender mais sobre a vida”.

Caravana a Brasília do Movimento das Fábricas Ocupadas

Mais do que um registro histórico, “Memórias das Ocupações de Fábrica” é uma ferramenta de formação política e inspiração para as novas gerações de jovens, trabalhadores e militantes.

Em tempos de aprofundamento da crise do capitalismo, a obra reafirma uma lição central: a classe trabalhadora, quando organizada, é capaz não apenas de dirigir a produção, mas toda a sociedade.