O imperialismo avança sobre as terras raras do Brasil. Nesta semana, a mineradora norte-americana USA Rare Earth (USAR) adquiriu a empresa brasileira Serra Verde por US$ 2,8 bilhões — equivalente a cerca de R$ 14 bilhões. Embora nacional, a Serra Verde já era estruturada com capital de fundos internacionais (Denham Capital, Vision Blue Resources e Energy & Minerals Group).
A Serra Verde opera a única mina ativa de argilas iônicas no país, em Minaçu (GO), e produz algumas das terras raras pesadas mais valiosas do mundo: disprósio (Dy), térbio (Tb), ítrio (Y) e praseodímio (Pr). As minas de argilas iônicas possuem facilidade de extração e menor custo em relação às minas tradicionais. Esses minérios são críticos para a indústria moderna e escassos em termos de extração — hoje, cerca de 90% está concentrada na China, e o Brasil tem a segunda maior reserva do mundo. Por isso, são estratégicos para a soberania produtiva de qualquer país. Estão presentes em carros elétricos, turbinas eólicas, robôs, drones, telas de LED, semicondutores, além de serem fundamentais para a indústria militar e aeroespacial.
Esse movimento não é isolado. Ele se insere na ofensiva global do imperialismo em meio à crise e à decadência do capitalismo, na disputa por cadeias estratégicas de produção e matérias-primas essenciais. Em um cenário de guerras e tensões crescentes, o controle sobre recursos como as terras raras torna-se central para as potências.
A USAR pretende estabelecer “a primeira cadeia de suprimentos de terras raras da mina ao ímã fora da Ásia”. Atualmente, o Brasil sequer domina o processamento: limita-se à extração bruta. Ou seja, exporta riqueza e importa tecnologia, aprofundando seu papel histórico de economia dependente.
A operação foi viabilizada com intermediação direta do governo dos Estados Unidos, que atua para garantir autonomia nesse setor estratégico. O contrato prevê fornecimento por 15 anos para uma Empresa de Propósito Específico (SPV), financiada por agências do governo norte-americano e capital privado, com compra garantida de 100% da produção inicial. Trata-se de um movimento claro de controle da cadeia produtiva global por parte do imperialismo.
Diante disso, vinha sendo debatida a criação de uma estatal — a “Terrabrás” — que controlasse todo o ciclo produtivo, da mina ao produto final. Isso significaria um salto tecnológico e produtivo para o Brasil. Mas não foi esse o caminho adotado.
Após o fechamento do negócio, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) descartou qualquer iniciativa nesse sentido e, na prática, deu sinal verde para a entrega de um recurso estratégico ao capital estrangeiro. O episódio não é um desvio, mas expressão de uma política mais ampla: o governo mantém o país subordinado ao capital financeiro internacional e preserva o papel do Brasil como fornecedor de matéria-prima para as potências.
No Congresso, a situação é ainda mais grave. Tramita um projeto que trata dos minerais críticos, mas reduz a “Terrabrás” a uma agência reguladora. Ao mesmo tempo, o presidente da Câmara, Hugo Motta (Republicanos), avança com propostas de incentivos fiscais para multinacionais explorarem essas riquezas. Ou seja, institucionaliza-se a entrega.
O discurso de soberania feito por Lula durante o “tarifaço” de 2025 ficou apenas na retórica. Na prática, o governo adota uma postura de submissão. Ainda que não haja um acordo formal divulgado, o que se vê é um alinhamento político que permite a entrada e o controle norte-americano sobre um setor estratégico — mais um capítulo da integração subordinada do Brasil à ordem imperialista.

A Constituição garante à União o controle sobre recursos naturais. A venda da Serra Verde, portanto, não poderia ocorrer sem o aval do governo federal. O fato de o negócio ter sido concluído demonstra que houve, no mínimo, um alinhamento político entre Lula e Trump sobre a questão. Na prática, o governo se omitiu diante da rapinagem.
As negociações já vinham ocorrendo há semanas, com participação ativa do governo dos EUA e intermediação do governador de Goiás, Ronaldo Caiado (PSD) — de família historicamente ligada a acusações de pilhagem de terras e coronelismo. Enquanto isso, o governo Lula assistiu passivamente à entrega do ativo estratégico.
Parte da esquerda limita-se a denunciar Caiado, poupando Lula, que tem poder para barrar esse tipo de operação. Outra parte aposta em saídas institucionais, como ações judiciais. Nenhuma dessas vias enfrenta o problema de fundo.
Nenhuma saída virá das instituições ou de setores da própria burguesia. A única resposta real à pilhagem das riquezas nacionais é a mobilização independente da classe trabalhadora. CUT, sindicatos do setor mineral e entidades estudantis já deveriam estar nas ruas, levantando a pauta da reestatização dos setores estratégicos sob controle dos trabalhadores, incluindo a mineração, a energia e o petróleo.
A União Nacional dos Estudantes (UNE) já teve papel histórico na campanha “O Petróleo é Nosso!”, mas, até agora, não há mobilização concreta diante de mais esse ataque, apenas um post na internet.
O que está em curso é evidente: o imperialismo norte-americano avança para controlar setores estratégicos da economia brasileira, em meio à disputa global por recursos e cadeias produtivas. A direita nacional atua como intermediária dessa entrega.
E o governo Lula, apesar do discurso, coloca-se, na prática, como garantidor desse processo, mantendo o país subordinado e aprofundando seu papel de economia dominada.
Organização Comunista Internacionalista (Esquerda Marxista)