Imagem: Reprodução, Redes Sociais

“Jones Manoel na voz” e Lula no palanque

Há um cenário nas eleições burguesas de 2026 no Brasil. Neste quadro sem arte, a figura principal é a do governo burguês de Lula e Alckmin, oficialmente candidato à reeleição como vice-presidente. Trata-se de uma tinta desbotada: baixa popularidade e, nas pesquisas, empatando ou até perdendo para Flávio Bolsonaro. Essas duas estatísticas são resultados do programa do governo federal contra a classe trabalhadora, simbolizado pelo mandato que mais privatiza, direta ou indiretamente, os bens públicos na história do Brasil.

Colado a esta figura está o Partido Socialismo e Liberdade (PSOL). Este partido, que nos anos 2010 despontou como uma alternativa de organização à juventude, hoje atua como uma legenda de fariseus. Isso porque, mesmo com relativas cisões internas, continua a compor o “campo progressista” na tentativa de reeleger Lula sob a bandeira da “democracia” contra o “fascismo bolsonarista”.

É justamente nesse canto da tela que Jones Manoel — abandonando o seu Partido Comunista Brasileiro Revolucionário (PCBR), como pode ser visto em carta de desligamento que circula na internet, na qual reclama da falta de financiamento do partido em seus projetos pessoais — decidiu se pintar. Com cores do oportunismo, sua filiação democrática para candidatar-se a deputado federal por Pernambuco expressa a busca por um mandato a qualquer custo, inclusive abrindo mão do programa da organização na qual foi figura pública desde o processo de cisão com o Partido Comunista Brasileiro (PCB), em 2023.

Em dezembro de 2025, o PCBR, ainda de Jones Manoel, publicou sua “Nota política – A posição do PCBR nas eleições burguesas de 2026”. Nela, vemos erros de análise da luta de classes, influenciados pela pseudociência da geopolítica, que levam o Comitê Central (CC) deste partido a considerar a classe trabalhadora acuada ou, em suas palavras, numa “defensiva generalizada”. Lemos também uma crítica ao governo burguês de Lula, na qual há acordos, incluindo a defesa de uma candidatura à presidência pelos partidos no Brasil que reivindicam a revolução e o comunismo.

Entretanto, em 2026, tal crítica se transformou em hipocrisia do PCBR ao aceitar, inicialmente, a candidatura de Jones Manoel pelo PSOL lulista. Já mencionada na referida Nota, a filiação democrática de Jones neste partido foi oficializada no último dia 28 de março. A filiação avançou pela articulação de Ivan Moraes, ex-vereador do PSOL em Recife e pré-candidato ao Governo de Pernambuco, com um vice-candidato do partido burguês REDE Solidariedade, pela composição da federação eleitoral.

Embora hoje Jones Manoel tenha se desligado, ainda não oficialmente, do PCBR, o processo de filiação oportunista deste militante da “esquerda radical” teve como centro o acordo com o Diretório Nacional do PSOL de apoio a Lula desde o primeiro turno. Um alinhamento absoluto de Jones Manoel à tática eleitoral psolista e petista, que perde adesão das massas trabalhadoras dia após dia.

“Ai de vós, escribas e fariseus, hipócritas, porque sois semelhantes aos sepulcros caiados, que, por fora, se mostram belos, mas, interiormente, estão cheios de ossos de mortos e de toda imundícia! Assim também vós exteriormente pareceis justos aos homens, mas, por dentro, estais cheios de hipocrisia e de iniquidade.” (Mateus, capítulo 23, versículos 27 e 28)

Como marxistas, lemos a Bíblia como um compilado de documentos políticos de povos da Antiguidade. Em alguns desses livros, vemos narrativas sobre os fariseus, um partido de judeus que, desde o século II a.C. até o fim do século I d.C., quando os Evangelhos foram escritos, observavam estritamente a lei mosaica, mas eram criticados por praticar o seu oposto com uma hipocrisia notável.

Em Marx, na sua “Introdução à Crítica da Filosofia do Direito de Hegel”, de fevereiro de 1844, lemos suas considerações com paralelos bíblicos aos idealistas alemães, além do uso de outros personagens das sagradas escrituras, os filisteus, representando os filósofos e burgueses alemães. Nela, Marx afirma que:

“As armas da crítica não podem, de fato, substituir a crítica das armas; a força material tem de ser deposta por força material, mas a teoria também se converte em força material, uma vez que se apossa dos homens. A teoria é capaz de prender os homens desde que demonstre sua verdade face ao homem, desde que se torne radical. Ser radical é atacar o problema em suas raízes.”

Marx educa ao explicar que a ação material, a construção da luta revolucionária, é preponderante no combate ao atraso e aos ataques dos inimigos da classe trabalhadora em sua emancipação. E que a teoria, as análises políticas corretas, passam a ser capazes de ganhar poder material quando empossadas pelos humanos sob ações acertadas.

As ecumênicas ilustrações acima nos ajudam a entender o significado de deseducação política, hipocrisia e mera crítica estéril ao governo Lula, que carrega a candidatura de Jones Manoel pelo atual PSOL. Ela possui um forte impacto, principalmente na juventude que acompanha Jones Manoel, pois o vê como um verdadeiro quadro comunista capaz de representar sua revolta contra o sistema. Ao aceitar compor um partido que, hoje, tornou-se cabo eleitoral acrítico de um governo burguês, Jones Manoel cumpre um papel oposto ao que os comunistas devem realizar na “festa da democracia” burguesa. É “Jones Manoel na voz”, como diz em seu slogan, e Lula no palanque.

Por óbvio, não é um erro político o uso da ferramenta de filiação democrática, pois ela é uma brecha que a esquerda encontrou diante de uma legislação eleitoral completamente antidemocrática no Brasil, que busca impedir candidatos à esquerda dos partidos da ordem. A existência da “filiação democrática” mostra o atraso político brasileiro, visto que, em qualquer país democrático, mesmo sob os marcos do capitalismo, os direitos eleitorais permitem com facilidade a criação de um partido apto às eleições e a uma candidatura independente em defesa da classe trabalhadora.

Contudo, nas condições brasileiras, a filiação democrática de Jones Manoel ocorre no atual PSOL, com sua crônica degeneração política. Além do abandono de Jones Manoel ao programa, já limitado, do PCBR, trata-se de sua capitulação à política psolista, como cabo eleitoral de Lula-Alckmin e do Partido dos Trabalhadores (PT).

De nada valem suas justificativas em podcasts e demais aparições, onde diz manter sua suposta independência em relação ao PSOL — principalmente agora, sem a direção do PCBR podendo disciplinar o “incentralizável” Jones Manoel —, visto sua prática prostrada ao oportunismo eleitoral, real justificativa de seu desligamento do PCBR. Assim, Jones Manoel assina o cheque de Lula 3 e a tentativa de Lula 4, com seus programas de maiores ataques à classe trabalhadora em toda a história dos governos petistas, até aqui.

É inegável que, com sua força na juventude, nas redes sociais e sua capacidade de repercussão na mídia, uma candidatura deste companheiro, sob filiação democrática, poderia ocorrer em legendas como o Partido Socialista dos Trabalhadores Unificado (PSTU) ou a Unidade Popular pelo Socialismo (UP). Mesmo com nossas críticas aos seus programas, PSTU e UP se mantêm independentes do governo Lula e manteriam Jones Manoel com condições de apresentar uma alternativa radical nas eleições burguesas.

Porém, Jones Manoel decidiu que seu papel nas eleições não será de um tribuno comunista às massas. Este companheiro decidiu assumir os recursos de um grande financiamento público via fundo eleitoral e das condições fisiológicas que o PSOL, e sua federação com a REDE Sustentabilidade, podem lhe dar para garantir um mandato em Brasília, rompendo com seus camaradas do PCBR.

“Vosso dever consiste em não descer ao nível das massas, ao nível dos setores atrasados da classe. Isso não se discute. Tendes a obrigação de dizer-lhes a amarga verdade: dizer-lhes que suas ilusões democrático-burguesas e parlamentares não passam disso: ilusões. Ao mesmo tempo, porém, deveis observar com serenidade o estado real de consciência e de preparo de toda a classe (e não apenas de sua vanguarda comunista), de toda a massa trabalhadora (e não apenas de seus elementos avançados).” (Lênin, em “Esquerdismo, doença infantil do Comunismo”, 1920)

Como leninistas, não temos dúvidas de que os comunistas devem participar das eleições burguesas. Essa participação e, se possível, um mandato parlamentar devem ter como prática a completa independência de classe, financeira e política.

Em todos os pleitos de que a OCI participou ao longo de nossa história, lançando camaradas como tribunos comunistas à classe trabalhadora, abrimos mão de cada centavo do fundo eleitoral e mantivemos nossa independência política, ainda que sob a tática do entrismo nos antigos PT e PSOL. Dessa forma, sem qualquer impulsionamento pessoal dos camaradas que cumpriram tal tarefa, incluindo mais uma série de mandatos nos legislativos de Joinville e Bauru, realizamos o papel dos comunistas nas eleições.

Ao avesso disso, uma candidatura de Jones Manoel, com as exigências do PSOL lulista, viabiliza não sua defesa contra as emendas parlamentares, as privatizações de Lula no Recife e em todo o Brasil, os ataques da extrema-direita e, muito menos, a defesa da formação de novos militantes comunistas. Essa candidatura não cumpre o papel leninista de dizer a amarga verdade das ilusões democrático-burguesas. Tais ações, em uma candidatura e possível mandato pelo PSOL, são impossibilitadas pela atual forma histórica deste partido, que inviabiliza qualquer independência real do programa representado pelo companheiro.

Reafirmamos que, na realidade, essa candidatura expressa que, para Jones Manoel, vale tudo por um mandato. Ela reforça apenas a figura pessoal de um militante e de um partido da ordem burguesa, e não as forças da revolução no Brasil e no mundo.

Por um partido, um programa e uma ação proletária, independente e revolucionária, dirigidos ao movimento sindical e à juventude, onde as armas da crítica não substituam a crítica das armas, organize-se e construa a Organização Comunista Internacionalista (OCI)!