Nas palavras de Friedrich Engels, em “Princípios Básicos do Comunismo”: “o comunismo é a doutrina das condições de libertação do proletariado”. Como marxistas, precisamos estudar a origem da ciência comunista, o socialismo científico, e também os elementos que tornaram possível o seu desenvolvimento. Se o comunismo busca libertar o proletariado, precisamos, primeiramente, entender como o sistema econômico que deu origem ao proletariado surgiu. A partir disso, também é necessário conhecer outras percepções comunistas que precederam Marx e observar não somente suas limitações, como também suas contribuições. Seguindo a síntese elaborada por Lênin em “As três fontes e as três partes constitutivas do marxismo”, também precisamos estudar os elementos filosóficos e econômicos do marxismo e a doutrina da luta de classes e, principalmente, entender qual é o papel dos comunistas e da juventude dentro desse cenário.
A revoluções burguesas
A transição entre o sistema feudal e o sistema capitalista é marcada pelas ideias revolucionárias do Iluminismo, na França do século XVIII. Esse foi um período no qual todos os aspectos do status quo foram submetidos à crítica, sendo compreendidos como resultados da ignorância que guiava a sociedade até então. Os iluministas traziam consigo a promessa de uma nova aurora social, com o desejo de construir um mundo igualitário, justo e pautado pela busca da verdade absoluta. Hoje sabemos, contudo, que esse mundo pretendido se revelou igualitário apenas para a burguesia, justo para a burguesia, e que a “verdade absoluta” era, na realidade, a verdade burguesa.
A rivalidade entre a nobreza feudal decadente e a emergente burguesia não foi uma estreia da luta de classes na história da humanidade, mas apenas uma das expressões da rivalidade universal entre explorador e explorado. Esse conflito de opostos é intrínseco a qualquer sistema de classes, e é claro que não seria diferente com o capitalismo, mesmo em sua origem. É por isso que a burguesia, desde o seu nascimento, carregou dentro de si sua própria antítese: a classe trabalhadora. O capitalista não pode existir sem o trabalhador assalariado, e é o trabalhador assalariado que possui o potencial de destruir o sistema capitalista.

O comunismo utópico e suas limitações
Ao mesmo tempo em que a burguesia se opunha à nobreza numa tentativa de se estabelecer como representante da sociedade (inclusive da classe trabalhadora), movimentos independentes de uma classe que viria a se tornar o proletariado moderno também eclodiram, principalmente na Alemanha, França e Inglaterra. Esses levantes revolucionários foram acompanhados de manifestações teóricas que, desde o século XVI, buscavam uma solução para a desigualdade social por meio da criação de uma “sociedade ideal”. Três grandes utopistas se destacam quando falamos sobre teorias do comunismo utópico: Saint-Simon, Fourier e Robert Owen.
Saint-Simon é chamado de “filho da Grande Revolução Francesa” por Engels, pelo fato de que ainda não tinha 30 anos quando a revolução aconteceu. Ao observar a vitória do “Terceiro Estado” na revolução, percebeu que quem havia triunfado era, na verdade, a burguesia possuidora. Foi por conta do governo dessa burguesia que a revolução chegou à beira da ruína, o que levou ao golpe de Estado de Napoleão em 1799. Sua concepção de antagonismo de classes se resumia a uma luta entre os “trabalhadores” e os “ociosos”. Os ociosos eram todos os antigos privilegiados e aqueles que viviam de suas rendas, sem intervir na produção nem no comércio, e os trabalhadores eram não somente os operários assalariados, mas também os comerciantes, fabricantes e banqueiros. Os antigos privilegiados já haviam demonstrado que não tinham capacidade para governar, e a experiência da revolução mostrou que os “trabalhadores” (a burguesia que estava emergindo, no caso) tampouco possuíam essa capacidade. Então, quem deveria governar? Para Saint-Simon, era necessário estabelecer uma parceria entre a ciência (sábios acadêmicos) e a indústria (burgueses ativos: fabricantes, comerciantes, banqueiros), a partir de um novo laço religioso, “forçosamente místico e rigorosamente hierárquico”, como descreve Engels.
Uma das maiores demonstrações do pensamento avançado de Saint-Simon é que, já em 1816, ele estabeleceu uma conexão fundamental entre a economia e a política, afirmando que “a política é a ciência da produção”. Sua visão abrangente o levou a conclusões que continham o germe das ideias que os economistas socialistas desenvolveriam mais tarde de maneira mais aprofundada.
Fourier, diferente de Saint-Simon, já conseguia reconhecer a miséria material e moral do mundo burguês, e seu espírito autenticamente francês o tornou capaz de desmascarar a retórica burguesa e também de pintar, por meio da sátira, a corrupção e a mesquinhez do comércio francês. Além disso, ele foi o primeiro a declarar que o grau de emancipação da mulher em uma sociedade é o barômetro natural pelo qual é possível medir a emancipação geral. Sua concepção da história é dividida em quatro partes: o selvagismo, a barbárie, o patriarcado e a civilização. A sociedade burguesa se encontra na última parte, a civilização, cuja existência se move em um “círculo vicioso” de contradições que não consegue superar, onde a pobreza surge da abundância. Essa definição da sociedade burguesa é um excelente exemplo de como Fourier compreendia a dialética com maestria. Para ele, o modelo ideal de sociedade poderia existir a partir da criação de pequenas comunidades autossustentáveis chamadas falanstérios, nas quais os indivíduos trabalhariam voluntariamente em atividades que correspondessem aos seus talentos e inclinações naturais. O trabalho seria distribuído de forma equitativa, e a riqueza, compartilhada de maneira justa, promovendo uma convivência harmoniosa e solidária.
Ao se preocupar com a criação do modelo de sociedade perfeita, Fourier falha na análise material das condições que levaram a sociedade capitalista a chegar onde chegou, encontrando sua limitação na falta de materialismo. Assim como Saint-Simon, ele não soube explicar as condições sociais a partir de uma base histórica e material.
Enquanto isso, na Inglaterra, a ascensão da grande indústria, marcada pelo uso do vapor e das máquinas-ferramenta, dividiu a sociedade em grandes capitalistas e proletários. Entre eles, o que antes era a antiga e estável classe média se transformou em uma massa instável de artesãos e pequenos comerciantes. Esse processo de transformação da sociedade arrancou os trabalhadores de suas origens rurais e os amontoou nos bairros mais pobres da cidade, forçando-os a enfrentar a ruptura de laços tradicionais de costumes, fazendo principalmente com que crianças e mulheres se submetessem a jornadas de trabalho excessivas e gerando uma desmoralização coletiva da classe trabalhadora.

É nesse contexto que Robert Owen, aos 29 anos, emerge como um fabricante influenciado pelos filósofos materialistas do século XVIII. Ao contrário de muitos de sua classe, que viam a Revolução Industrial como uma oportunidade para enriquecer, Owen via nela uma chance de implementar suas ideias sobre a ordem no caos. Como gerente da fábrica de fios de algodão de New Lanark, ele criou um modelo de comunidade operária, reduziu as horas de trabalho, ofereceu melhores salários e criou escolas e creches para os filhos dos trabalhadores. Ele acreditava que o bem-estar dos trabalhadores resultaria em maior produtividade e moralidade e que o ambiente social moldava o comportamento humano e, portanto, melhorar esse ambiente levaria a uma sociedade melhor.
A visão mais ambiciosa de Owen para a transformação social estava na criação de comunidades cooperativas, onde a propriedade seria compartilhada e a produção, feita coletivamente. Nessas comunidades, a competição capitalista seria substituída pela cooperação entre os indivíduos, promovendo uma vida social mais harmoniosa e igualitária. Owen tentou colocar essa ideia em prática criando comunidades como a de New Harmony, nos Estados Unidos, mas essas experiências não tiveram sucesso. Sua limitação estava em acreditar que era possível gerar uma transformação social sem conflito de classes, apenas mostrando aos capitalistas um sistema mais justo.
O que há de comum nas três grandes personalidades do socialismo utópico? Apesar do grande desejo de mudar o mundo, cada um se concentrou em elaborar propostas idealistas e reformas para alcançar aquilo que consideravam ser um modelo de sociedade ideal, sem conseguir identificar os conflitos de classe como o motor da transformação social. Para eles e também para outros teóricos do socialismo utópico, o socialismo é a expressão da verdade absoluta. Contudo, como marxistas, entendemos que a verdade absoluta não existe, pois tudo está sujeito ao desenvolvimento humano e a condições de espaço e tempo. Além disso, o conceito de verdade absoluta varia a partir da concepção de cada filósofo e de cada escola, que, por sua vez, estão sujeitos às condições sociais e materiais.
A partir dessa miríade de características, é inevitável que o socialismo se tornasse uma teoria eclética, baseada em diversos fatores diferentes e conflitantes. Para elevar esse socialismo ao status de ciência, foi necessário trazê-lo para a realidade.
A filosofia marxista
Quando pensamos na história da humanidade, percebemos duas coisas: primeiro, tudo que aconteceu e continua acontecendo está entrelaçado de alguma forma; segundo, tudo está em constante mudança. Essa percepção de mundo não é algo novo: Heráclito, filósofo pré-socrático, já declarava: “Tudo é e também não é, pois tudo flui, encontra-se em constante mudança, em constante devir e fenecer.” Essa perspectiva é o que chamamos de dialética.
Apesar de correta, ao olharmos o mundo a partir de um “quadro geral”, observando todas as interações e conexões entre eventos, torna-se difícil analisar elementos de forma isolada. Para isso, foi necessário que a humanidade elaborasse um método capaz de desprender esses elementos de seu contexto natural ou histórico e examiná-los mais a fundo no campo da ciência da natureza. Esse campo analisa a natureza em suas diversas partes, classifica processos e objetos naturais em categorias, pesquisa os corpos orgânicos segundo sua estrutura anatômica, entre outros aspectos.

Esse método de pesquisa, porém, criou o hábito de enfocar as coisas e processos da natureza isoladamente, fora de seus contextos, considerando-os como consistências fixas e absolutas. Ao transpor esse método das ciências naturais para a filosofia, surgiu o método metafísico de especulação.
Podemos resumir o método metafísico como um pensamento fixo, rígido e isolado sobre as coisas: um objeto é ou não é, sem meio-termo ou contradição. É fácil pensar que esse método se assemelha ao “senso comum”, mas, embora funcione em condições ideais, o senso comum enfrenta sérios problemas quando precisa lidar com situações complexas da vida real.
Por exemplo, é claro que conseguimos identificar se um animal existe ou não. No entanto, há situações em que o limite racional entre uma coisa e outra é difícil de ser traçado: a “hora da morte”, por exemplo. Sabemos que a morte não é um acontecimento único e instantâneo, mas sim um processo demorado. Esse exemplo ilustra como o pensamento metafísico é insuficiente.
Da mesma forma, todo ser orgânico está em constante mudança: células morrem e outras se formam, substâncias são renovadas e átomos dessas substâncias substituídos. Essas transformações não cabem no pensamento metafísico, mas sim na forma dialética de pensar. A natureza é a prova da dialética, e somente ela pode fornecer uma visão abrangente da totalidade do mundo, do seu desenvolvimento e do desenvolvimento da humanidade.
Nesse sentido, a filosofia alemã resgatou a dialética, culminando no sistema hegeliano, que conseguiu enxergar o grande emaranhado caótico de brutalidades que haviam ocorrido até então como parte do processo de desenvolvimento da humanidade.
Hegel sistematizou três leis dentro da dialética: a lei da unidade e luta dos contrários, a lei da transformação da quantidade em qualidade e a lei da negação da negação. A lei da unidade e luta dos contrários explica que todos os fenômenos são constituídos por forças opostas ou contraditórias que coexistem e interagem entre si. Esses contrários não são estáticos; eles entram em conflito, e é dessa luta que surge o movimento e a transformação. Em vez de uma visão harmônica da realidade, a dialética identifica que o desenvolvimento ocorre por meio de tensões e antagonismos, nos quais a superação de um estado de contradição leva a novos estágios de evolução.
A segunda lei, a transformação da quantidade em qualidade, explica como pequenas mudanças acumuladas (quantitativas) levam, em certo ponto, a uma mudança repentina e significativa (qualitativa). Essa ideia é aplicada tanto em processos naturais quanto sociais. Um exemplo famoso que Engels descreve é o da água, que, ao ser aquecida, passa gradualmente de um estado frio até chegar ao ponto de ebulição, onde sua forma qualitativa muda de líquido para vapor. Na sociedade, esse princípio pode ser observado quando pequenas tensões econômicas ou políticas se acumulam até resultar em um “salto dialético”. Um grande exemplo dessa lei em ação na história do Brasil são as jornadas de junho de 2013, quando o aumento das tarifas de transporte, somado a outras mudanças acumuladas, gerou um salto significativo que levou milhões de brasileiros às ruas. As mesmas jornadas podem também ser analisadas para explicar outros aspectos, como a crise de direção, que será discutida mais à frente.
A terceira lei, a negação da negação, explica como o desenvolvimento ocorre por meio de uma superação constante de estágios anteriores. O conceito de “negação” aqui não significa simplesmente destruir o que veio antes, mas sim superá-lo e integrá-lo de uma forma mais avançada, deixando para trás seus aspectos reacionários e preservando seus aspectos progressistas e revolucionários. Esse processo de negação leva a novas sínteses, nas quais elementos do antigo são preservados e transformados. A história social, por exemplo, pode ser vista como um processo de negação de sistemas econômicos e sociais antigos (como o feudalismo sendo negado pelo capitalismo), levando a novas formas de organização que, por sua vez, serão superadas no futuro. É importante destacar que, ao superar um sistema, não o apagamos por completo: breves vestígios de sua existência podem ainda persistir dentro de um período de transição para um novo sistema.

Apesar de possuir um pensamento avançado, Hegel, assim como outros, não escapou das limitações de seu próprio conhecimento e da sua época. Sua visão idealista, que concebia as condições materiais como fruto da consciência, limitou naturalmente a sua capacidade de elaborar conclusões concretas e corretas sobre o mundo. Ao mesmo tempo em que apresentava um sistema que concebe a história humana como um processo de desenvolvimento constante, sem a possibilidade de alcançar uma verdade absoluta, ele apresenta esse próprio sistema como uma soma e síntese dessa verdade absoluta. “Um sistema universal e definitivamente plasmado do conhecimento da natureza e da história é incompatível com as leis fundamentais do pensamento dialético – que não exclui, mas, longe disso, implica que o conhecimento sistemático do mundo exterior, em sua totalidade, possa progredir gigantescamente de geração em geração”, como explica Engels na obra “Do socialismo utópico ao socialismo científico”.
Assim como a metafísica foi ultrapassada e substituída pela dialética, o idealismo de Hegel também foi superado, dando lugar ao materialismo. Isso ocorreu quando, em meados de 1830, diversas ondas de revolta proletária eclodiram pela Europa, refutando a teoria burguesa sobre a harmonia universal gerada pela livre concorrência. A partir dessas revoltas, o idealismo se mostrou incapaz de analisar a conjuntura social a partir de uma base sólida, que considerasse os interesses materiais. Portanto, após uma revisão de toda a história, chega-se à conclusão de que a história da humanidade é, de fato, a história da luta de classes. O materialismo, agora apoiado na dialética, permitiu à humanidade conceber a consciência humana como fruto de sua existência, e não o contrário.
A partir desse ponto, o socialismo se estabelece como um produto da luta entre burguesia e proletariado. Agora, com a ciência do materialismo histórico-dialético como base – um instrumento que não estava disponível para os utopistas – a função do socialismo não é mais elaborar um sistema perfeito para a sociedade, mas investigar os processos históricos do sistema atual e as soluções para o conflito entre as duas classes.
A concepção materialista da história parte da tese de que a divisão dos homens em classes ou camadas é determinada pelo que a sociedade produz, como produz e como esses produtos são trocados. Portanto, a verdadeira causa das transformações sociais e revoluções não pode ser encontrada na mente humana ou no que os seres humanos creem ser a justiça ou a verdade eterna, mas sim nas transformações operadas nos modos de produção e de troca. Se queremos encontrar essas respostas, precisamos estudar a economia da época em questão. Quando os homens começam a perceber que as instituições sociais são injustas e irracionais, isso significa que a estrutura econômica e o modo de produção e distribuição já passaram por transformações e estão em conflito com a ordem social vigente. Dentro dessas novas relações de produção e distribuição, já existem os meios necessários para derrubar a ordem estabelecida, e tais meios não podem ser descobertos na “cabeça” de alguém ou apenas através da filosofia, mas sim a partir do estudo dos fatos materiais da produção, tal como a realidade os apresenta.
Sabendo que a ciência marxista é o materialismo histórico dialético, como essa ciência explica a ordem social atual? A ordem social vigente é obra da burguesia. O modo capitalista de produção, assim chamado por Marx, não era compatível com o sistema feudal. Portanto, a burguesia derrubou a ordem feudal e levantou, sobre suas ruínas, seu regime de livre concorrência burguesa. Os métodos de produção passaram por um crescimento inédito com a chegada do vapor e das máquinas-ferramenta, que transformaram a produção em uma grande indústria. Porém, assim como a manufatura e o artesanato se desenvolveram ao ponto de colidir com a ordem feudal, a grande indústria se desenvolveu de forma a transbordar a ordem burguesa. Esse conflito não é algo criado pela cabeça do homem, seguindo uma lógica idealista, mas sim fruto da realidade objetiva e material.
Economia marxista
Foi a partir da descoberta da mais-valia que o socialismo conseguiu explicar a origem da exploração de classe sob o sistema capitalista. O capitalista, sempre que contrata um funcionário, se apropria do valor excedente produzido pelo trabalhador além do necessário para repor o custo de sua força de trabalho. Esse excedente é apropriado pelo capitalista como lucro. É isso que chamamos de mais-valia, e é a partir dessa teoria que se explica a acumulação de capital nas mãos dos possuidores de meios de produção.
O modo de produção na Idade Média se baseava, no campo, em pequenos lavradores (livres ou vassalos), e em artesãos na cidade. Dessa forma, a produção tinha um caráter bastante individual. Um artesão era capaz de produzir um produto inteiro sozinho, fazendo com que aquele produto o pertencesse. É fato que existiam aprendizes que trabalhavam para alguns artesãos, mas o seu papel era muito claro: aprender o ofício e, assim que possível, abrir sua própria oficina. O seu tempo como trabalhador assalariado não era longo, mas sim visto com uma fase transitória e necessária para construir o seu ofício individual.

O modo de produção capitalista transformou essa lógica individual de produção em uma lógica social: substituindo o tear manual pelo tear mecânico e o martelo do mecânico pelo martelo movido a vapor, os meios individuais de produção se tornam meio sociais. A produção de uma fábrica depende de centenas e milhares de operários, o que resulta em centenas e milhares de mãos necessárias nas linhas de produção, e nenhuma delas pode dizer “esse produto é meu, eu o fiz sozinho”. Ao invés disso, quem é considerado o verdadeiro dono de tudo que é produzido é justamente aquele que não participa, em nenhum momento, do processo de produção: o dono dos meios de produção. Essa é a primeira e principal contradição do sistema capitalista, o divórcio total entre o trabalhador e o fruto do seu trabalho.
A produção social fez com que a produção individual sucumbisse, pois os produtos produzidos em fábrica por um custo muito baixo eram vendidos por preços muito parecidos com os dos produtos individuais, que possuem um custo de produção maior. O produtor individual, vendo sua produção sucumbir, não teve escolha senão se submeter ao trabalho assalariado, que antes era apenas uma exceção. O trabalho assalariado, que antes era uma condição temporária, se torna uma condição para toda a vida. Assim se concretiza a divisão definitiva entre os detentores dos meios de produção e os que não possuem nada além de sua força de trabalho.
Durante a Idade Média, a produção no campo era voltada majoritariamente para o consumo próprio, e a família camponesa somente vendia os produtos que se tornavam excedentes. Mesmo nas cidades, apesar de produzir para o mercado, os artesãos ainda conseguiam satisfazer suas necessidades de forma quase inteiramente autossuficiente. Esse estágio da produção, por ser parte de um mercado mais restrito, era bastante estável. O modo de produção capitalista, porém, faz com que os produtores percam o controle sobre suas relações sociais, produzindo sem saber ao certo qual é a demanda do mercado, gerando uma verdadeira anarquia de produção. Agora, é o produto que impera sobre o produtor.
Fourier estava certo ao declarar que a sociedade burguesa se move em um círculo vicioso de contradições. Mas, além disso, as contradições se intensificam cada vez mais com o passar do tempo, fazendo com que esse círculo diminua cada vez mais. Isso é mais perceptível quando as crises estouram, cada vez mais próximas e mais profundas. É a força dessas contradições que transforma cada vez mais homens em trabalhadores, e que, ao mesmo tempo, impulsiona melhorias no maquinário que eliminam postos de trabalho. A massa de trabalhadores descartados constitui assim um grande exército de reserva, pronto para assumir postos de trabalho em épocas nas quais a indústria trabalha a todo vapor, mas que logo em seguida são eliminados em momentos de crise. Não é possível resolver a questão do desemprego dentro do sistema capitalista: a anarquia presente na produção capitalista necessita de um verdadeiro exército de proletários reserva para suprir as suas demandas e regular os baixíssimos salários. A maquinaria, que possui o potencial de ser utilizada para diminuir as jornadas e aliviar as condições de trabalho, se torna, segundo Marx, a mais poderosa arma do capital contra a classe trabalhadora.
A acumulação de capital e a anarquia de produção levam o sistema capitalista a, inevitavelmente, passar por constantes crises gerais. Em momentos de crises, o comércio é paralisado, as fábricas fecham, trabalhadores sofrem com escassez de meios de subsistência, mesmo sendo as crises causadas pela produção excessiva dos mesmos. Isso acontece até que os estoques se normalizem e a economia se recupere, e então o ciclo recomeça. Esse padrão de crises se repete desde 1825, com crises cada vez mais frequentes e mais hostis, que demonstram cada vez mais a contradição entre o modo de produção e a apropriação capitalista, sinal de que o capitalismo não é mais capaz de gerenciar suas próprias forças produtivas. Pelo contrário, se torna ele próprio uma camisa de força para o desenvolvimento destas.
Ao desenvolver o mercado mundial e a produção em larga escala, o capitalismo desenvolveu as forças produtivas, produzindo um imenso salto em direção ao reino da liberdade. As forças produtivas que estavam contidas pelo modo de produção feudal foram liberadas, e foi possível produzir muito mais em menos tempo. Pela primeira vez na história, as bases materiais para a emancipação da exploração de classes foram alcançadas. O capitalismo já cumpriu seu papel na História. Como Trotsky disse no “Programa de Transição”: “As condições para o socialismo não apenas já estão maduras, elas começam a apodrecer.”
As crises, a escassez, a fome, o desemprego e a pobreza são elementos intrínsecos ao sistema capitalista. Não é possível “reformar o sistema” e garantir permanentemente melhores condições de vida para a classe trabalhadora. Cada pequena conquista é rapidamente desfeita diante da primeira crise. À medida que o capitalismo permanece, nos vemos diante de uma escolha inevitável: socialismo ou barbárie.
Construir as bases para o comunismo
A história da humanidade é a história da luta de classes. Seja entre homem livre e escravo, senhor feudal e servo ou entre burgueses e proletários, a luta de classes é o motor que move a história. Essas lutas são impulsionadas pelas contradições de cada época, pois cada sistema, ao desenvolver seus meios de produção, desenvolve também o seu antídoto.

Porém, uma sociedade comunista livre de classes não se constrói do dia para a noite. O período de transição entre o capitalismo e o comunismo, chamado de ditadura revolucionária do proletariado, precisa existir, pois é nesse período que a classe trabalhadora faz uso do Estado para submeter seus adversários aos seus interesses. O proletariado deve assumir o controle democrático dos meios de produção e transformá-los em propriedade pública. A partir do desenvolvimento dos meios de produção social, baseado na propriedade pública, a existência de classes sociais se torna anacrônica. Esse período é essencial para as reformas econômicas que visam redistribuir a riqueza, eliminar a exploração e criar as bases para uma sociedade comunista, onde o Estado desaparecerá e os recursos serão geridos coletivamente, atendendo às necessidades de todos.
Por isso, ao falarmos da ditadura do proletariado, não estamos falando sobre liberdade: como explica Engels em sua carta a August Bebel, em 1875, “a partir do momento em que se pode falar em liberdade, o Estado deixa de existir como tal” e, consequentemente, a ditadura do proletariado cumpre sua função e deixa também de existir, dando lugar a uma sociedade livre de classes: o comunismo.
Numa fase superior da sociedade comunista, quando tiver sido eliminada a subordinação escravizadora dos indivíduos à divisão do trabalho e, com ela, a oposição entre o trabalho intelectual e manual; quando o trabalho tiver deixado de ser mero meio de vida e se tornado a primeira necessidade vital; quando, juntamente com o desenvolvimento multifacetado dos indivíduos, suas forças produtivas também tiverem crescido e todas as fontes de riqueza coletiva jorrarem em abundância, apenas então o estreito horizonte jurídico burguês poderá ser plenamente superado e a sociedade poderá escrever em sua bandeira: “De cada um segundo sua capacidade, a cada um segundo suas necessidades!”
O papel dos comunistas na luta de classes
O problema da humanidade é o problema da direção do proletariado. É possível observar, em diversos momentos históricos, que os movimentos sociais encontraram condições favoráveis para uma transformação social, mas foram freados por uma direção que não tinha intenções revolucionárias de fato. As Jornadas de Junho, exemplo supracitado, ilustram muito bem não somente a transformação de quantidade em qualidade, mas também o que ocorre quando, mesmo em meio à efervescência de uma população ávida por mudanças sociais, falta uma direção revolucionária capaz de assumir o papel de dirigir as massas para uma revolução. Portanto, o papel de cada comunista é se formar teoricamente e atuar na luta de classes, ler e aprender com a teoria, adquirir experiência nos atuais embates da classe trabalhadora contra a classe dos exploradores, conquistando a confiança e inserção em setores cada vez mais amplos da juventude e dos trabalhadores.
E qual é o papel da juventude comunista? Lênin, ao ingressar no movimento revolucionário, tinha 23 anos; Trotsky ingressou aos 17. Isso possibilitou que ambos observassem o papel da juventude dentro de um partido revolucionário, papel esse que é discutido diversas vezes em suas obras. Trotsky, no “Programa de Transição”, afirma que “apenas o fresco entusiasmo e o espírito ofensivo da juventude podem oferecer os primeiros sucessos na luta”. Um dos fatores que torna a juventude uma parcela tão importante é sua disposição para a luta, que renova o entusiasmo da velha geração de combatentes, desgastados pelas traições das velhas direções.
Porém, como Lênin explica, as tarefas de um jovem comunista podem ser resumidas em uma palavra: aprender. Para ajudar a construir uma sociedade comunista, é necessário aprender o comunismo. Além disso, é necessário que a juventude absorva, criticamente, todo o conhecimento acumulado pela sociedade até o momento e que aprenda a utilizá-lo para a construção de uma sociedade comunista, que se valerá de todo o conhecimento e tecnologia já existentes, além daquilo que ainda virá, não para servir aos interesses da classe burguesa, mas para o avanço da humanidade. É assim que acontecerá “o salto da humanidade do reino da necessidade para o reino da liberdade.”
Referências bibliográficas
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ENGELS, Friedrich. Princípios básicos do comunismo. [S.I.]: Editora Avante, 1982.
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LÊNIN, Vladimir Ilyich. As tarefas da juventude revolucionária. [S.I.]: Editora Avante, 1977.
TROTSKY, Leon. Programa de Transição da IV Internacional: a agonia do capitalismo e as tarefas da IV internacional. São Paulo: Sundermann, 2017.