Camaradas da seção alemã da CMI, Der Funke (Faísca)

Alemanha hoje e a luta dos marxistas

Uma análise superficial da situação da Alemanha poderia levar a crer que o país vive uma estabilidade política e econômica. No entanto, as aparências enganam. A maior economia da Europa está em plena sintonia com as turbulências mundiais.

Nas eleições de 2017, os dois partidos tradicionais sofreram perdas significativas de votos. São eles a Unidão Democrata-Cristã/União Social-Cristã (CDU/CSU, na sigla em alemão) – da chanceler Angela Merkel – e o Partido Social-Democrata Alemão (SPD). No passado, as duas formações juntas somavam uma média de 80% dos votos. Agora, nas eleições de setembro do ano passado, ficaram com 53,5% dos eleitores (CDU/CSU com 33% e SPD com 20,5%).

O último governo social-democrata (1998 a 2005), com o chanceler Gerhard Schröder à frente, iniciou em 2003 a aplicação de um plano chamado “Agenda 2010”. Tratava-se na verdade de um programa de austeridade, privatizações e retirada de direitos dos trabalhadores. Agora, o SPD participa da coalizão de sustentação do governo conservador de Angela Merkel. O histórico de traições dos social-democratas faz com que ele seja identificado como mais um partido do sistema. Nos últimos 20 anos perdeu aproximadamente metade de seus eleitores e militantes.

Diante da crise econômica, o Estado salvou bancos, impôs um programa de apoio para a indústria automobilística, enquanto o nível de vida entrou em queda. Mesmo com a recuperação nos índices econômicos, os cortes em áreas sociais prosseguiram. Hoje, 40% da população alemã vive em condições mais precárias do que há 20 anos. Os aluguéis de casas nos centros urbanos têm tido um grande aumento, enquanto os salários não acompanham essa valorização. Dos cerca de 40 milhões de assalariados, 10 milhões têm contratos de trabalho precários.

Toda essa situação tem causado um mal-estar crescente na população. Em quase todas as grandes cidades, por exemplo, ocorreram manifestações contra o aumento dos aluguéis no último período.

Uma expressão deste descontentamento também tem sido o crescimento de um partido de extrema direita, com um discurso demagógico, anti-imigrantes e anti-refugiados, chamado Alternativa para a Alemanha (AfD). Esse partido conseguiu pela primeira vez assentos no parlamento federal (Bundestag), com 12,6% dos votos nas últimas eleições, chegando como terceira força.

Esse crescimento tem similaridade com outros fenômenos internacionais, Le Pen e sua Frente Nacional na França, A Liga (antiga Liga do Norte) na Itália, de certa forma também Trump nos EUA e, no Brasil, o crescimento da candidatura de Bolsonaro. Não estamos de acordo com a avaliação de que esses casos expressariam que as massas estão sendo ganhas para o fascismo, como propagado pela grande mídia e pelas análises impressionistas da esquerda. O que existe é revolta contra o sistema, contra os partidos tradicionais e suas traições, fazendo com que um discurso demagógico, populista, falsamente ‘anti estabilishment’, amplie sua base de apoio. E se houve crescimento dessas forças de direita, também é um fato o crescimento de alternativas à esquerda seguidas demonstrações de mobilização popular ao redor do mundo.

Na Alemanha, esse lugar à esquerda poderia ser ocupado pelo Partido de Esquerda (Die Linke). Mas ele não tem conseguido aproveitar a situação. Está estagnado. Nas últimas eleições obteve 9,2% dos votos. Em 2009 tinha chegado a 11,9%. O Die Linke não tem dado respostas à altura da situação atual, contendo-se em um discurso reformista de esquerda.

Recentemente, algumas figuras políticas provenientes dos verdes (Grüne), da esquerda (Die Linke) e da social-democracia (SPD) lançaram o movimento “Levante-se” (Aufstehen) com o objetivo de ser um polo de atração aos descontentes que não veem nesses partidos uma alternativa. Ainda é incerto o destino do movimento, mas deve ser acompanhado com atenção.

O que é certo, é que a instabilidade política aprofunda-se também na Alemanha. Os camaradas da seção alemã da Corrente Marxista Internacional, A Faísca (Der Funke), têm participado de várias lutas contra a retirada de direitos e realizado atividades de formação política. Em outubro será um seminário de dois dias sobre os 100 anos da Revolução Alemã. Os militantes estão conscientes da necessidade de preparar as forças do marxismo para as turbulências que se avizinham. Segue trecho da resolução de Perspectivas para a Alemanha, dos camaradas de Der Funke:

Para ser um fator no movimento da classe trabalhadora e na próxima onda pré-revolucionária, nossa organização deve crescer em quantidade e qualidade. Se as relações de produção contradizem o estado técnico de desenvolvimento dos meios de produção, essa contradição se manifesta em crises sistêmicas profundas e orgânicas. Como resultado, surgem situações revolucionárias na história da humanidade. Se essas situações revolucionárias podem ser vitoriosas, depende se há uma organização revolucionária que analise a situação, desenvolva uma estratégia correta, coordene a luta e agrupe as forças da classe. Construir esta organização é o nosso objetivo”.

*Artigo escrito com apoio e informações fornecidas pelos camaradas Maria Clara e Hans Öfinger, ambos de Der Funke, seção alemã da CMI