Eleição e crise no Peru

Depois de várias semanas, foi concluído o lento processo de apuração das eleições, realizadas no dia 12 de abril, para a presidência e para o congresso, realizadas no Peru. Embora uma das pesquisas de boca de urna apontasse um segundo turno entre Keiko Fujimori, filha do antigo ditador do país, e Rafael López Aliaga, figura de extrema direita e entusiasta apoiador de Donald Trump, o resultado das urnas foi diferente. Um dos candidatos que se colocam como de esquerda, Roberto Sánchez Palomino, do Juntos Por El Perú, que foi ministro do Comércio Exterior e Turismo no governo de Pedro Castillo, disputará o segundo turno contra Fujimori. Palomino, que chegou a aparecer em quinto lugar em uma das pesquisas de boca de urna, representa, embora de forma ainda mais limitada, o setor que defendia o projeto nacionalista nas eleições realizadas há cinco anos e que levou à vitória de Castillo.

O processo eleitoral ocorreu em um cenário de continuidade da crise política, que, ao longo dos anos, vem se manifestando tanto na destituição de presidentes como em protestos por parte dos trabalhadores. Nas urnas, um evidente sinal desse desgaste passa pela expressiva quantidade de votos brancos, em torno de 11,7%, e nulos, por volta de 5,1%. Esses votos somam mais do que os recebidos por Fujimori, com 14,26% dos votos, e por Palomino, com 9,98%. Em meio a isso, durante a contagem, viu-se uma evidente pressão da burguesia no sentido de colocar López Aliaga, que recebeu 9,88% dos votos, no segundo turno e de preparar o terreno para o combate ao que foi chamado de “populismo autoritário de esquerda”. Chegou-se a esboçar denúncias de “crime eleitoral” contra Palomino, no sentido de inviabilizar sua participação no segundo turno. López Aliaga, seguindo os passos de seu mentor Trump, fala em “golpe” na eleição, que o teria tirado do segundo turno.

O atual processo eleitoral foi marcado pela completa fragmentação. Concorreram trinta e seis candidaturas à presidência, englobando todos os espectros políticos. O país teve oito presidentes desde 2016. Os dois presidentes eleitos não terminaram seu mandato, e os demais sequer foram votados para o cargo, sendo ou vice-presidentes ou membros do congresso. Esses antigos presidentes, em muitos casos, sofreram acusações diversas, em especial de corrupção, e alguns inclusive foram presos. Poucas semanas atrás, o presidente interino, José Enrique Jerí Oré, que ocupava o cargo depois da renúncia da antiga vice-presidente, Dina Boluarte, foi afastado das funções pelo congresso.

Na eleição de 2021, o processo de crise ganhou novos capítulos e tensões. Nas urnas, foi eleito Pedro Castillo, líder sindical docente que ganhou projeção nacional ao liderar uma greve, com um discurso nacionalista e representando um partido que se reivindicava marxista. Embora tenha amenizado o discurso nacionalista, no processo eleitoral e mesmo durante seu curto mandato, foi atacado de forma permanente pelo congresso, pela burguesia, pelo imperialismo e mesmo por setores do próprio partido. Depois de diversas tentativas de destituição, Castillo foi derrubado em setembro de 2022.

Mesmo com o desgaste e a derrubada de Castillo, que representava de forma distorcida as reivindicações mais sentidas dos trabalhadores e da população mais pobre, o processo político não foi enterrado. Pelo contrário, ainda que de forma indireta, nas urnas, o atual processo eleitoral mostra a indignação por parte dos trabalhadores. Embora fragmentados em diversas candidaturas, os partidos que se reivindicam de esquerda ou que apresentam um mínimo discurso progressista receberam cerca de 40% dos votos. Podem ser incluídos nesse campo político quatro das sete candidaturas que obtiveram mais de 5% dos votos nas eleições presidenciais. Na eleição legislativa, ainda que de forma fragmentada, esses partidos conquistaram a maioria, podendo vir a constituir uma maioria parlamentar. Entre os parlamentares eleitos, mostrando a força da figura de Castillo, estão Yenifer Paredes, sua filha, deputada mais votada em Cajamarca, e José Mercedes Castillo, seu irmão, segundo senador mais votado.

Contudo, nenhum desses partidos aponta para uma ruptura ou um embate, ainda que limitado, com o imperialismo, como o fez Castillo. Nem mesmo setores ligados a Castillo, em sua maioria reunidos no Juntos Por El Perú e que vão disputar o segundo turno com Roberto Sánchez Palomino, se aproximam do programa defendido cinco anos atrás. Contudo, o voto nas candidaturas genericamente progressistas mostra o descontentamento da população em relação à situação econômica e política e a permanência do processo político que, cinco anos atrás, se expressou de forma distorcida no voto em Castillo.

O fato de esse voto dos trabalhadores se dividir em diferentes partidos e com programas que sequer se aproximam do reformismo é expressão da ausência de uma direção política que aponte no sentido da transformação social. Os trabalhadores têm apenas nas eleições o espaço para expressar sua indignação diante da miséria, da exploração e da degradação a que estão submetidos, tendo que escolher entre partidos que não representam de forma efetiva seus interesses.

Esta eleição, como a anterior, permite algumas lições. Os trabalhadores peruanos, traídos repetidamente por seus representantes, não podem depositar confiança nas urnas ou mesmo em candidaturas que se dizem de esquerda. Mostra-se urgente dar continuidade e aprofundar o processo de luta contra a burguesia e o imperialismo e, a partir disso, construir uma direção para os trabalhadores que se coloque no sentido da luta pelo socialismo e pela revolução.