Cartismo, o início da ação política da classe operária

O cartismo significou um extraordinário avanço nos primórdios do movimento operário. Seu período de maior atividade foi entre os anos de 1837 e 1848. O palco foi a Inglaterra, o país da Revolução Industrial.

O cartismo teve o mérito de superar o infrutífero ludismo, movimento do início do século XIX, que utilizava como método a destruição das máquinas nas fábricas, tendo sido um passo à frente também em relação à limitação do sindicalismo, colocando em pauta uma luta política.

Além da situação miserável da classe operária, um elemento importante para compreender a explosão do movimento cartista relaciona-se com a eleição dos deputados ao parlamento britânico. O voto era restrito a quem tinha uma determinada propriedade, excluindo dessa forma a classe operária e uma parcela da pequena burguesia. Em 1832 é aprovada uma reforma, mas que se restringiu a atender a demanda de maior representação das grandes cidades industriais, em detrimento de povoados do interior, controlados por latifundiários. Também fez uma pequena ampliação no número de eleitores, satisfazendo camadas médias da sociedade, mas ainda deixando a imensa maioria da população impedida de votar.

Nesse contexto surge o movimento cartista, cujo nome deriva de uma carta de reivindicações redigida por William Lovett pela Associação dos Trabalhadores de Londres, que foi chamada de “Carta do Povo” (ver box).

Apesar de aparentemente bastante moderadas para nossos dias, na época estas reivindicações levantaram a classe operária e estremeceram a classe dominante. Engels falou sobre estes pontos: “Esses seis pontos, que são todos limitados à reconstituição da Câmara dos Comuns, inofensivos como parecem, são suficientes para derrubar toda a Constituição inglesa, incluindo a rainha e os senhores”.

A partir da petição, foi chamada uma convenção e manifestações de massa com centenas de milhares de trabalhadores pelo país. Ao final, em julho de 1839, foi entregue a carta com 1,2 milhão de assinaturas para a Câmara dos Comuns, que a rejeitou com 46 votos a favor e 235 contra.

A separação do proletariado da pequeno-burguesia

Essa negação provocou uma radicalização do movimento, que já vinha dividido em duas linhas políticas.  Uma mais moderada, de se restringir à pressão sobre o parlamento, e outra mais radical, que defendia a ação nas ruas, a organização dos trabalhadores e o uso da força. Na realidade, uma divisão entre as classes que compunham o movimento, a pequena-burguesia e o proletariado. Junto a isso veio a repressão ao movimento com a prisão de 130 líderes.

Os cartistas iniciaram a preparação de uma espécie de insurreição. No entanto, o amadorismo e a desorganização levaram o movimento a ser esmagado pelas tropas do governo, com dezenas de mortos e centenas de presos. Três líderes foram condenados ao enforcamento, mas após uma petição assinada por duas milhões de pessoas, foram apenas deportados.

A partir da “Carta do Povo” foi feita uma petição que continha seis pontos fundamentais:

  1. Sufrágio universal masculino (o direito de todos os homens com mais de 21 anos ao voto).
  2. Voto secreto através da cédula.
  3. Eleição anual.
  4. Igualdade entre os direitos eleitorais.
  5. Nenhuma qualificação de propriedade para os membros do parlamento, permitindo a participação de representantes da classe operária.
  6. E que os parlamentares fossem remunerados. 

Nasce o primeiro partido da classe operária

Um líder da ala mais radical, operária, era Feargus O’Connor. Ele impulsionou a criação de uma organização nacional, a Associação Nacional da Carta (ANC), que pode ser considerada o primeiro partido político da classe trabalhadora com um regimento e presença nacional. A ANC chegou a ter mais de 40 mil membros que cotizavam regularmente.

Em 1842 é formulada uma nova petição, esta recebe mais de 3 milhões de assinaturas. E mais uma vez é rejeitada pelo parlamento (287 votos contra 49) desencadeando uma nova onda de protestos e uma greve geral.

As mulheres trabalhadoras, mesmo não estando incluídas na reivindicação de sufrágio, participaram ativamente do movimento constituindo suas próprias associações cartistas.

No entanto, a falta de uma perspectiva revolucionária levou o movimento ao declínio e, mais uma vez, à dura repressão do governo, com 1,5 mil prisões e 200 deportados.

A última atividade significativa do cartismo foi em 1848. Ano da onda revolucionária que varreu a Europa. Uma nova petição foi formulada com 2 milhões de assinaturas, manifestações massivas também ocorreram. Porém, novamente o movimento foi esmagado pela reação do governo britânico, o mesmo ocorreu em outros países. Essa derrota levou ao declínio terminal do cartismo.

Esse movimento, independente de suas limitações e fragilidades, proporcionou importantes lições e avanços para a consciência de classe do proletariado. Dentre os seis pontos da petição inicial, vários foram sendo conquistados ainda na segunda metade do século XIX. Da segunda carta, uma importante conquista foi a jornada máxima de 10h de trabalho.

Hoje está claro que não basta o sufrágio universal, não basta a existência de parlamentares operários. Os próprios cartistas mais radicais já compreendiam que as reivindicações não eram um fim, mas um meio. O fim, para a emancipação real da classe operária, o marxismo nos ensina:  só com a derrubada de todo o Estado burguês.