Golpe na Bolívia: origem e perspectivas

Um golpe reacionário forçou a renúncia do presidente eleito, Evo Morales, em 10 de novembro. Neste breve artigo, um pouco da história, do passado recente e uma análise do golpe e seu desenvolvimento.

Um pouco do passado

A Bolívia é um país profundamente desigual e pobre, com a economia baseada na agricultura e extração de recursos naturais. Tem o segundo pior IDH (Índice de Desenvolvimento Humano) da América do Sul, ficando atrás apenas da Guiana. Isso, apesar do propagado crescimento econômico da última década.

Sua história é marcada pela exploração de países imperialistas. Começando pela Espanha, em seu período de colônia. O país declara independência em 1809, mas seguem-se 16 anos de guerra até ser estabelecida a República, em 1825, com o apoio militar dos Exércitos Libertadores, liderados por Simón Bolívar. O nome do país é fruto de uma homenagem a Bolívar.

As décadas seguintes são marcadas por golpes, caudilhos militares, guerras, perdas de território (o Acre, antes, pertencia à Bolívia). E a manutenção do poder econômico e político nas mãos dos latifundiários e de um punhado de famílias ricas.

Em 1952, ocorre uma maravilhosa revolução. Operários, trabalhadores da cidade, mineiros, derrotam o Estado burguês e seu exército. O MNR (Movimento Nacionalista Revolucionário), um partido nacionalista pequeno-burguês, assume o governo, mas em uma situação de duplo poder, em que a recém-fundada COB (Central Operária Boliviana) era vista como a verdadeira representante dos trabalhadores e camponeses. Na COB, papel central era (e ainda é) jogado pela FSTMB (Federação Sindical dos Trabalhadores Mineiros da Bolívia), que na época era fortemente influenciada pelos trotsquistas do POR. Em 1946, o Congresso da federação chega a adotar as teses dos trotsquistas, que ficaram conhecidas como as Teses de Pulacayo, uma espécie de tradução do Programa de Transição para a realidade boliviana.

No entanto, o POR limita-se a tentar influencia a ala esquerda do MNR, a COB não toma o poder, e o governo do MNR, que vai cada vez mais para a direita, consegue sufocar a revolução. Em 1964, um novo golpe inicia uma série de governos militares, que reprimem o movimento de trabalhadores e camponeses, e abre o país para os interesses imperialistas. O regime militar chega ao fim em 1982, mas a situação continua precária para a maioria da população nos anos 80 e 90, com alta inflação, privatizações, etc.

Novo século, novas revoltas

No ano 2000, eclode uma revolta popular contra a privatização do serviço de abastecimento de água na cidade de Cochabamba, conhecida como a Guerra da Água. O movimento é vitorioso com a anulação da privatização.
Um ciclo de rebeliões se abre no país. Os partidos e governos burgueses perdem credibilidade. Dois presidentes são obrigados, pela revolta popular, a renunciar, primeiro Gonzalo Sánchez de Lozada (2003) e depois Carlos Mesa (2005). Ressurgem as Assembleias Populares (experimentadas pela primeira vez em 1971, nas mobilizações contra o governo militar). Entretanto, com a recusa da direção da COB em tomar o poder, a revolta é canalizada para a via eleitoral, e Evo Morales, do MAS (Movimento ao Socialismo), é eleito presidente no fim de 2005.

Evo, esperança e traição

Um presidente com origem nos movimentos sociais, indígena, traz a esperança de pôr fim a séculos de exploração. Entretanto, ao invés de fortalecer as Assembleias Populares, Evo chama uma Assembleia Constituinte, cujo objetivo e resultado foi de reconstruir o Estado burguês destroçado.
Pressionado pela base que o elegeu, também é obrigado a fazer concessões, como a nacionalização do petróleo e gás. Mas Evo permanentemente busca a conciliação com a burguesia e vai caminhando cada vez mais para a direita, fazendo concessões ao capital nacional e internacional. Para ficar em dois exemplos próximos: Evo esteve presente na posse de Bolsonaro e apoiou a extradição do militante de esquerda Cesare Battisti para a Itália (ele tinha saído do Brasil e se refugiado na Bolívia após a posse de Bolsonaro). A adoção, por parte de Evo, da política, dos métodos e mesmo a incorporação de políticos burgueses em seu partido, o MAS, conduziu a uma progressiva perda de apoio entre as bases populares.

Golpe e resistência

Por fim, Evo confiou na OEA para legitimar a eleição realizada em outubro, em que disputou seu quarto mandato. A oposição de direita não reconheceu a vitória de Evo, bandos da extrema-direita, impulsionados pelo líder “cívico” de Santa Cruz, Luis Fernando Camacho, iniciaram todo tipo de ações violentas, incluindo ataques a políticos do MAS. Os comandos do exército e da polícia se voltaram contra Evo, e “sugeriram” sua renúncia. A OEA levantou suspeita de fraudes nas eleições. Evo renunciou e agora está exilado no México.

No entanto, o golpe não está consolidado, há movimentos de resistência (greves, marchas, bloqueios de rodovias) apesar da postura lamentável da direção da COB, que não mobiliza a base e clama aos que realizaram o golpe a “paz social” e retorno à “ordem constitucional”. A presidente autoproclamada, Jenine Añez, começou seu mandato dando carta branca para a repressão, em um único dia (15/11), 9 manifestantes contra o golpe foram mortos.

Diante da posição covarde da direção da COB e FSTMB, é possível que o golpe venha a se consolidar momentaneamente. Mas, sem ter como resolver os problemas econômicos imediatos que enfrentam os trabalhadores bolivianos, o novo governo será de crise e enfrentará a luta do povo. Nada está resolvido. Os trabalhadores e camponeses bolivianos necessitarão retomar suas tradições revolucionárias para superar os atuais dirigentes e construir uma saída positiva, revolucionária e socialista, contra os ataques dos golpistas da direita.