Interesses de grandes potências jogam com a vida do povo curdo

Os curdos são um povo composto por cerca de 30 milhões de pessoas no mundo, vivendo em diferentes países, principalmente na Turquia, Síria, Iraque, Irã e Armênia. Os curdos têm uma língua própria, cultura e tradições particulares, e são historicamente oprimidos pelos governos destes países. Os curdos lutam para constituir sua própria nação, o Curdistão.

Os marxistas, seguindo a linha de defesa da autodeterminação dos povos, colocam-se contra a opressão aos curdos e pelo direito de decidirem se constituir em uma nação autônoma.

Quase metade de todos os curdos vive na Turquia, na região sudeste, compondo aproximadamente 18% da população do país. Recep Erdogan, o presidente turco, no início, buscou se apoiar nos curdos para chegar ao poder, mas quando o movimento pela independência dos curdos começou a crescer e o poder de Erdogan a diminuir, o conflito se acentuou até o recente ataque das forças armadas turcas em regiões tomadas pelos curdos no norte da Síria (fronteira com Turquia), áreas controladas pelo YPG (Unidade de Proteção Popular), braço armado do Partido de União Democrática (PYD), ligado ao Partido dos Trabalhadores Curdos (PKK).

Os combatentes do YPG, lutando contra a opressão nacional, por uma pátria, e com base em ideias de esquerda, rapidamente se tornaram os mais eficientes combatentes contra os terroristas bárbaros do Estado Islâmico na Síria, sua ala feminina, o YPJ, ficou internacionalmente conhecida. Já os EUA perderam terreno na Síria com o apoio da Rússia, de Vladimir Putin, ao presidente Bashar al-Assad. O imperialismo americano buscou se apoiar nas forças curdas do YPG, como parte da coalizão das Forças Democráticas Sírias, enviando dinheiro e apoio militar.

Os EUA, após usarem os curdos na Síria, os abandonaram à própria sorte. Trump, após ligação telefônica a Erdogan, decidiu retirar as tropas americanas do norte da Síria, dando sinal verde para o ataque turco aos curdos. Um dia após a saída dos militares americanos começaram os bombardeios e ataques aéreos da Turquia, em 9 de outubro.

O movimento político de Trump, em meio a uma ameaça de impeachment e a preparação para novas eleições, satisfaz seus eleitores. Por isso, ele declara via Twitter: “Os Estados Unidos gastaram OITO TRILHÕES DE DÓLARES lutando e policiando no Oriente Médio. Milhares de nossos grandes soldados morreram ou foram gravemente feridos. Milhões de pessoas morreram do outro lado. Entrar no oriente médio foi a pior decisão já tomada”. E também: “…Na história do nosso país fomos à guerra sob uma premissa falsa e agora não comprovada, armas de destruição em massa! Não havia NENHUMA! Agora estamos trazendo lenta e cuidadosamente nossos grandes soldados para casa. Nosso foco está no GRANDE QUADRO! Os EUA são maiores do que nunca!”.

Entretanto, a retirada das tropas americanas da Síria tem outro objetivo político: a reaproximação do EUA com o governo de Recep Erdogan, afastando-o da influência de Rússia e China. Ou seja, entregaram os curdos para agradar o ditador turco, que controla um país estratégico no Oriente Médio, membro da OTAN.

A ofensiva da Turquia já matou dezenas de civis, além de centenas de feridos. Estima-se que 300.000 curdos no total deixem suas casas por conta dos ataques. Há indícios de que o exército turco já tenha usado armas químicas no conflito, ilegais pelos acordos internacionais.

Erdogan tem sofrido com a estagnação econômica e a queda de apoio. Nas últimas eleições locais perdeu nas principais cidades, como Istanbul e Ankara. Vale lembrar que em 2013, pouco antes dos protestos de junho de 2013 no Brasil, a Turquia foi abalada por mobilizações massivas, com a participação predominante de jovens, contra o governo. A ofensiva militar busca também coesionar uma base nacionalista raivosa anti-curda, além de expulsar os refugiados sírios do país.

O objetivo inicial de Erdogan é criar uma “zona de segurança” da fronteira Turquia/ Síria, avançando 100km dentro do território sírio. Nesta faixa, até então controlada pelos curdos, seriam realocados 3 milhões de refugiados sírios hoje na Turquia.

Os EUA realizaram um acordo com Erdogan, com uma comitiva de peso indo à Turquia. Tal acordo, na realidade, seria uma rendição das forças curdas, que seriam obrigadas a afastar 32km para o interior do território da Síria e teriam que entregar suas armas pesadas.

O que fica evidente em toda esta experiência é que a luta dos explorados e oprimidos não pode ter ilusões em alianças com capitalistas e potências imperialistas. Erdogan já disse apoiar os curdos e os traiu, os EUA também, agora as forças de Bashar al-Asad estão oferecendo apoio. Na realidade todos tentam usar os curdos para seus interesses.

A saída para a luta do povo curdo é uma guerra revolucionária e de classe. Chamando uma greve geral nas áreas curdas da Turquia, junto ao armamento popular e de suas organizações nos comitês de autodefesa de trabalhadores e bairros, apelar aos sindicatos e às organizações dos trabalhadores em toda a Turquia para se unirem à sua greve pelo fim da guerra e contra o regime de Erdogan. Medidas semelhantes devem ser adotadas dirigindo-se ao proletariado de outros países do Oriente Médio e além. Este é o caminho da vitória para o povo curdo, nada de alianças com burgueses e imperialistas.