Militarismo, caos e carnificina social: uma reorganização mundial da economia global e a saída necessária

Estamos vivendo uma época de mal-estar geral na sociedade. Esse mal-estar é sobretudo marcado pela ampliação da violência, tanto individual, assumindo a forma de crimes brutais contra mulheres, animais, crianças e idosos, como também pela violência do Estado burguês, na forma do assassinato social que é a guerra imperialista e a execução de trabalhadores em becos e favelas, morros e vielas, pelas polícias militares e guardas municipais.

Por trás desse cenário, o que está se desenvolvendo é a marcha rumo à desintegração do mercado mundial, a ampliação do nacionalismo econômico e da política reacionária e agressiva do imperialismo — leia-se, do capital financeiro — contra os povos de todo o mundo. A lei do mais forte e a reação em toda a linha.

Esse conjunto emerge no contexto da crise do sistema capitalista, uma crise orgânica, típica de superprodução, em que o capital encontra, na exploração mais intensa dos mercados existentes e na destruição de forças produtivas, a saída para manter a acumulação.

Para se ter uma ideia, o capital financeiro acumula “direitos” futuros sob a forma de ações, ativos, títulos de dívida pública, derivativos e fundos de investimento etc., muito acima do valor real produzido anualmente. É como se, para liquidar com todo esse estoque de ativos financeiros globais atuais, tivéssemos que produzir de quatro a cinco vezes tudo o que já produzimos anualmente em todo o mundo — isso significa que nosso presente já foi comprometido para saciar a sede de acumulação dos abutres da grandeza.

Mas essa contradição entre produção real e capital fictício é insuportável. Como dizem os economistas, em algum momento esse desequilíbrio precisa ser “ajustado”. Por um lado, esse ajuste assume a forma das privatizações, dos cortes orçamentários em serviços públicos, do aumento da jornada de trabalho e da implementação de tecnologia para ampliar a exploração do trabalho. Por outro lado, assume também a forma do militarismo, base para ativar a produção industrial e extrair mais-valia numa ponta, ao passo que destrói as condições de vida e a própria vida na outra.

Assim, proliferam-se conflitos militares. Segundo dados do Stockholm International Peace Research Institute (SIPRI), há hoje o maior número de conflitos armados desde a 2ª Guerra Imperialista Mundial. São 61 conflitos armados, envolvendo 36 países, a maior quantidade dos últimos 70 anos.

Há um aumento sem precedentes dos gastos militares globais, somando US$ 2,718 trilhões em 2024, com cinco países concentrando 60% desse volume (EUA, China, Rússia, Alemanha e Índia).

Os Estados europeus são agora os principais consumidores militares do mundo, tendo triplicado as importações de armas entre 2021 e 2025. Nesse mesmo contexto, as exportações de armas dos EUA aumentaram 27%. O país já é o maior fornecedor de armas do mundo.

Em meio ao ataque imperialista dos EUA e Israel contra o Irã, Trump implementou medidas emergenciais para quadruplicar a produção de armamentos, com empresas contratadas pelo Departamento de Defesa. São empresas como BAE Systems, Boeing, Honeywell Aerospace, L3Harris Missile Solutions, Lockheed Martin, Northrop Grumman e Raytheon.

Segundo dados do SIPRI, há hoje o maior número de conflitos armados desde a 2ª Guerra Imperialista Mundial. São 61 conflitos armados, envolvendo 36 países, a maior quantidade dos últimos 70 anos / Imagem: @IsraeliPM, Fotos Públicas

O que elas têm em comum? São altamente dependentes da demanda estatal para sua produção, têm seu planejamento do que produzir definido sob encomenda do Estado. Esse é um exemplo perfeito para explicar a elaboração de Rosa Luxemburgo sobre o militarismo.

Em que pese os erros cometidos por Rosa em sua análise, sua contribuição demonstra perfeitamente como o Estado constitui uma demanda para a produção de produtos bélicos, a partir dos impostos indiretos.

Ela verifica que uma parte considerável dos impostos indiretos — aqueles arrancados do consumo dos trabalhadores — é destinada à compra de armas e munições de empresas privadas que, a partir dessa demanda estatal, encontram um novo campo para a acumulação que não existiria sem essa demanda. Com isso, a produção industrial-militar orientada para a carnificina social da guerra imperialista e dos demais conflitos militares atua como um motor auxiliar para o funcionamento da economia capitalista em crise.

O resultado é a crise humanitária em termos de refugiados, deslocados e pessoas forçadas a deixar suas casas e sua terra natal por causa de conflitos militares. Como resultado da guerra na Ucrânia, que já dura mais de quatro anos, há mais de 2 milhões de mortos e feridos e 10 milhões de deslocados; na Palestina, mais de 67 mil mortos, mais de 169 mil feridos, mais de 10 mil desaparecidos sob escombros e mais de 1 milhão e 900 mil deslocados; no Sudão, mais de 150 mil mortos e 12 milhões de deslocados.

Outro aspecto é o aumento da letalidade das polícias de todo tipo e a ampliação dos orçamentos para “Segurança Pública”, que são, na verdade, investimentos da burguesia, através do Estado burguês, para equipar as forças de repressão em sua atividade dupla de defesa da propriedade privada e das táticas de contra-insurgência aos levantes dos trabalhadores.

A ordem de Yalta e Potsdam terminou, e um período de caos e imprevisibilidade está expresso nos acontecimentos que se desdobram a nossas vistas. Nesse contexto de instabilidade, institutos de pesquisa como o SIPRI apontam evidências no sentido de uma reorganização da economia mundial em torno da guerra. Essas evidências são compostas pela expansão da indústria de “Defesa” em diferentes aspectos, como empresas fornecedoras de produtos bélicos com ciclos de crescimento acelerado, contratos garantidos por anos ou décadas a partir da demanda do Estado, ampliação de fábricas para atender à demanda aquecida e a transformação de plantas automotivas em plantas orientadas para a produção de armamentos, como constatado nas negociações da Volkswagen com fabricante israelense do Domo de Ferro para mudar o foco da produção.

O planejamento do Estado orientado para gastos militares, como nos anúncios de aumentos progressivos dos orçamentos destinados à “Defesa”, pode ser observado, por exemplo, na França, ao confirmar o desenvolvimento do ASN4G (Air-Sol Nucléaire de 4e Génération), um míssil hipersônico nuclear, capaz de atingir velocidades superiores a Mach 3 e carregar uma ogiva nuclear de 300 kt, isto é, com um poder destrutivo de 15 a 20 vezes maior do que a bomba lançada em Nagasaki.

Há uma crescente ampliação da militarização da inovação tecnológica, como, por exemplo, nas áreas de inteligência artificial e automação, uso de sistemas autônomos, drones e sistemas de defesa contra drones, cibersegurança e defesa em guerra cibernética, tecnologia espacial, armas de energia direcionada e hipersônicas, além do aumento do uso de realidade aumentada e virtual para simulação de combates etc.

O planejamento do Estado orientado para gastos militares, como nos anúncios de aumentos progressivos dos orçamentos destinados à “Defesa”, pode ser observado, por exemplo, na França, ao confirmar o desenvolvimento do ASN4G / Imagem: @EmmanuelMacron

A financeirização do militarismo ocorre com fundos de investimento aumentando suas posições relacionadas à “defesa”, ações de empresas fornecedoras de produtos bélicos com seus papéis valorizados e em alta, e financiamento de bancos para a produção industrial-militar.

Há, por fim, um processo de retomada da produção industrial ou até mesmo de reindustrialização de diferentes economias, baseado em cadeias produtivas orientadas para a produção militar, como no caso da China, que mantém um sistema produtivo integrado para a produção civil e militar, por exemplo, aproveitando a estrutura da produção de navios comerciais para a produção de navios de guerra no mesmo sistema produtivo.

São elementos que apontam para um desenvolvimento da economia global marcado pela produção do que chamamos de forças de destruição — produção industrial destinada à carnificina, à destruição da vida e das condições de vida dos povos do mundo.

Um sistema econômico pode desintegrar-se, isto é, tornar-se incapaz de desenvolver as forças produtivas sociais em direção à ampliação da liberdade do conjunto da humanidade sob as condições hostis da natureza; esse sistema sucumbe sobre si mesmo e esmaga a civilização que criou e que por ele foi desenvolvida.

Essa é a perspectiva atual? A civilização está na iminência de colapsar? Não. No entanto, o futuro não parece promissor, enquanto a produção e a distribuição continuarem orientadas para o lucro de poucos, sob o sangue e suor de muitos. A minoria parasita está armando-se até os dentes, impondo morte e destruição, além dos impactos econômicos da guerra, como o fechamento do estreito de Ormuz e o aumento dos preços do petróleo, que inflam os gêneros alimentícios.

Imagem: RS, Fotos Públicas

A guerra não é um problema distante, mas algo que nos atinge a todos, sobretudo nossos iguais, os trabalhadores do mundo. A ampliação da violência individual e estatal não é um problema de cada vítima e de sua família; é uma tarefa a ser resolvida pela única guerra capaz de acabar com todas as outras e com essa ampliação da violência individual — a guerra de classes.

Cada um que ganhar a consciência desse cenário está chamado a implicar-se na luta revolucionária para pôr abaixo o imperialismo e suas guerras. Todo falatório burguês sobre “defesa”, sobre “paz”, sobre “acordos”, sobre “segurança nacional” é um ultraje e serve apenas para dissuadir os proletários de sua tarefa histórica, convencendo-os a seguir seus preconceitos chauvinistas, nacionalistas e xenofóbicos.

Pelo contrário, nós estamos aqui pela Humanidade! Há 100 anos, revolucionários que deram sua vida na luta contra o imperialismo e suas guerras corretamente conclamaram:

“Somente o socialismo é capaz de realizar uma grande obra de paz duradoura, de curar as mil feridas sangrentas da humanidade, de transformar em jardins florescentes os campos de todo o mundo pisoteados pelo cortejo bélico dos cavaleiros do apocalipse, de fazer surgir forças produtivas duplicadas no lugar das que foram destruídas, de despertar todas as energias físicas e morais da humanidade e de pôr no lugar do ódio e da discórdia a solidariedade fraterna, a união e o respeito por tudo que tem face humana.” (Aos proletários de todos os países, em nome da Liga Spartakus, Karl Liebknecht, Rosa Luxemburgo, Franz Mehring e Clara Zetkin, novembro de 1918.)

É chegada a nossa hora de empregar todos os esforços na tarefa de abrir uma saída rumo ao futuro, de empregar todos os esforços na principal tarefa de nossa época: a construção de uma força proletária mundial capaz de enfrentar as forças reacionárias do imperialismo, impor uma derrota às suas guerras e levantar a bandeira da verdadeira paz, que só pode ser alcançada por meio da mudança radical de toda a sociedade.